CHUVAS EM MG: BUSCAS ENTRAM NO 4º DIA; MORTES CHEGAM A 64 EM UBÁ E JUIZ DE FORA

Jornal Impacto Diário | 27/02/2026

CHUVAS EM MG: BUSCAS ENTRAM NO 4º DIA; MORTES CHEGAM A 64 EM UBÁ E JUIZ DE FORA
CHUVAS EM MG: BUSCAS ENTRAM NO 4º DIA; MORTES CHEGAM A 64 EM UBÁ E JUIZ DE FORA

Serra (ES), 27 de fevereiro de 2026
Por Rodrigo Santos Dias

As equipes de resgate em Minas Gerais iniciaram, nesta sexta-feira (27), o quarto dia de buscas por desaparecidos após temporais que provocaram enchentes e deslizamentos na Zona da Mata. Segundo balanços divulgados ao longo do dia, o número de mortos chegou a 64, com maior impacto em Juiz de Fora e Ubá, além de centenas de desabrigados e danos severos à infraestrutura urbana.

Autoridades mantêm operações em áreas instáveis, onde a lama e o risco de novos deslizamentos impõem protocolo de segurança e lentidão técnica nas escavações. A tragédia reabre um ponto incontornável: prevenção custa menos que reconstrução — e, do ponto de vista administrativo, a omissão reiterada em obras de contenção e drenagem tende a se converter em responsabilização política e, quando cabível, jurídica, após perícias e apurações formais.

O cenário expõe um problema estrutural que não é exclusivo de Minas Gerais. Em diversas cidades brasileiras, áreas de risco são conhecidas há décadas. Relatórios técnicos existem. Mapas geológicos existem. Alertas da Defesa Civil existem. Ainda assim, obras de drenagem, contenção de encostas e planejamento urbano seguem sendo tratadas como promessa de campanha, não como política de Estado.

É impossível ignorar que prefeitos, vereadores e governadores conhecem os gargalos estruturais de suas comunidades. O que se vê, muitas vezes, é a manutenção do problema como instrumento político: a calamidade vira palanque, a tragédia vira discurso, a reconstrução vira propaganda. A lógica é perversa — quanto maior a dependência da população, maior o capital político explorado.

Em países que enfrentam furacões, terremotos ou tsunamis com frequência, sistemas de alerta, engenharia preventiva e planejamento territorial são prioridades permanentes. Não se trata de fatalismo geográfico. Trata-se de gestão pública eficiente, continuidade administrativa e respeito ao dinheiro público.

No Brasil, o ciclo se repete: chuva intensa, mortes, comoção nacional, promessas de reconstrução e, meses depois, esquecimento. Até que o próximo verão traga novamente lama, dor e indignação. Cada vida perdida carrega uma pergunta incômoda: era evitável?

Especialistas em urbanismo e gestão de riscos afirmam que intervenções estruturais — como piscinões, ampliação de galerias pluviais, contenção de encostas e reassentamento planejado — custam menos do que operações emergenciais sucessivas. Sob o prisma jurídico, a negligência comprovada pode caracterizar improbidade administrativa ou responsabilidade civil do ente público, dependendo das conclusões periciais.

O que acontece em Ubá, em Juiz de Fora e em tantas outras cidades brasileiras não pode ser tratado como simples fatalidade climática. São vidas interrompidas, famílias destruídas e comunidades inteiras mergulhadas na incerteza.

A sociedade não espera milagres. Espera planejamento. Espera prioridade orçamentária. Espera que o dinheiro arrecadado seja revertido em segurança, infraestrutura e qualidade de vida. Permanecer no poder não é, por si só, um problema. O problema é permanecer sem entregar soluções estruturais.

A tragédia de hoje não pode ser a manchete esquecida de amanhã. Porque, quando a chuva passar, ficará a responsabilidade. E ela não pode ser soterrada junto com a lama.